20 de agosto de 2011

Reflexão...

Leito de Procusto”

Uma antiga lenda grega nos conta sobre um homem rico, poderoso, absequioso e cortês, de nome Procusto, que tinha por hábito convidar estranhos para seu palácio. O hóspede era recebido com requinte: túnicas primorosamente talhadas, vinhos muito especiais, iguarias inesquecíveis e... um leito suntuoso. Ao visitante porém um único problema se apresentava: encaixar-se perfeitamente no leito. Se houvesse qualquer discrepância, entre os tamanhos da cama e do convidado, este era cortado ou esticado para que se adequasse às proporções devidas. A morte era quase certa! poucos e raros convidados, absolutamente adequados à dimensão pré-estabelecida, alcançavam a velhice.
         Pois bem, para enfrentar a dificuldade da comunidade em conviver com a diferença, a pessoa com deficiência deve caber no leito de Procusto, mesmo que isso signifique esticar-se ou mutilar-se – para então adequar-se ao molde pré-estabelecido. É a tela do pintor adequando-se à moldura, é a melodia ao gosto do público ou à voz do cantor...
         Mas não apenas um e sim vários são os leitos de Procusto que aguardam, dependendo das circunstâncias, a pessoa com deficiência.
         Num primeiro ela deve, no mínimo, transformar-se num arremedo de não deficiente. Suas diferenças devem ser neutralizadas ao máximo: sua aparência, sua aprendizagem, seu desempenhotudo isso deve aproximar-se do esteticamente usual, do pedagogicamente tradicional, de uma pauta de comportamento habitual. Acrescento a isso o fato desses parâmetros de normalidade serem às vezes mais rígidos e estáticos com relação à pessoa deficiente do que seriam de forma geral.

AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença/deficiência. Brasília: Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, 1994 – p 43-44.